Artigo sobre capoeira publicado na Revista Principal em março/1997
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Acriditi si quisé
Acriditi si quisé (Teimosia)
Eu vô li dizê u'a coisa
Acriditi si quisé
A viola bem tocada
Assust'até coroné
Faiz chuva caí pá cima
Faiz lião andá di ré
Faiz chuvê lá nu sertão
Faiz morto ficá di pé
Cantadô quando s'achega
Qui assume a função
Canta cum vontade forte
Qui faiz tremê coração
Faiz sangui corrê na veia
Na palma di sua mão
Tocadô qui bate fraco
Faiz o som saí errado
Baqueta é di madêra
Num é macarrão moiado
Num s'iscuta birimbau
Pareci qui tá dublado
Tocadô qui bati forte
Na batida compassada
U batuque sai tinindo
Faiz u povo dá risada
Bota jogadô nu rumo
Faiz a alma sê lavada
I us três bricano junto
Viola, tocadô, cantadô
É qui perpara u chão
Pá recebê jogadô
Qui faiz u seu miserê
Lá no meio da roda, sim sinhô
Camaradinho...
É di bamba, é di bamba, é di bamba ê
Lê-lê, viola é bamba
É di bamba, é di bamba, é di bamba ê
Lê-lê, cantadô é bamba
É di bamba, é di bamba, é di bamba ê
Lê-lê, tocadô é bamba
Eu vô li dizê u'a coisa
Acriditi si quisé
A viola bem tocada
Assust'até coroné
Faiz chuva caí pá cima
Faiz lião andá di ré
Faiz chuvê lá nu sertão
Faiz morto ficá di pé
Cantadô quando s'achega
Qui assume a função
Canta cum vontade forte
Qui faiz tremê coração
Faiz sangui corrê na veia
Na palma di sua mão
Tocadô qui bate fraco
Faiz o som saí errado
Baqueta é di madêra
Num é macarrão moiado
Num s'iscuta birimbau
Pareci qui tá dublado
Tocadô qui bati forte
Na batida compassada
U batuque sai tinindo
Faiz u povo dá risada
Bota jogadô nu rumo
Faiz a alma sê lavada
I us três bricano junto
Viola, tocadô, cantadô
É qui perpara u chão
Pá recebê jogadô
Qui faiz u seu miserê
Lá no meio da roda, sim sinhô
Camaradinho...
É di bamba, é di bamba, é di bamba ê
Lê-lê, viola é bamba
É di bamba, é di bamba, é di bamba ê
Lê-lê, cantadô é bamba
É di bamba, é di bamba, é di bamba ê
Lê-lê, tocadô é bamba
segunda-feira, 29 de julho de 2013
Quando eu era pequenino
Quando eu era pequenino
Lá no fundo do quintal
Minha mãe me dava angu
Meus irmãos comiam mingau
Minha mãe tinha sete filhos
Eu era o derradeiro
Quando a farinha era pouca
Eu gritava "meu pirão primeiro"
Farinha pouca, meu pirão primeiro...
Lá no fundo do quintal
Minha mãe me dava angu
Meus irmãos comiam mingau
Minha mãe tinha sete filhos
Eu era o derradeiro
Quando a farinha era pouca
Eu gritava "meu pirão primeiro"
Farinha pouca, meu pirão primeiro...
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corrido
Sobre a hierarquia...
Esse mundo não tem dono
e quem me ensinou sabia
se tivesse dono o mundo
nele o dono moraria
como é mundo sem dono
não aceito hierarquia
eu não mando nesse mundo
nem no meu vai ter chefia
e quem me ensinou sabia
se tivesse dono o mundo
nele o dono moraria
como é mundo sem dono
não aceito hierarquia
eu não mando nesse mundo
nem no meu vai ter chefia
Camaradinho...
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terça-feira, 6 de novembro de 2012
O poder negro da capoeira
Por D. David Dreis (tradução: Teimosia)
Publicado na revista Black Belt no início dos anos 70
A nação brasileira está dando uma longa e dura olhada no seu passado xadrez. Algumas das coisas que ela vê, precisam ser lavadas e esfregadas, de maneira que façam boas leituras em livros de história. Rebeliões escravas à base de derramamento de sangue, são parte de seu folclore. E o Brasil está finalmente aceitando a capoeira como o verdadeiro poder negro da nação.
Por muitos anos, o Brasil tem posto à margem a sua herança com a capoeira. Ela tem sido negligenciada, desconsiderada e negada. Historiadores lutam contra a censura burocrática para encontrar clareiras, buracos na história que tiveram que ser preenchidos. Alguns anos atrás, um português de 81 anos, testemunha ocular dos buracos na história, contou uma estória: a estória era sobre capoeira.
Vicente Ferreira Pastinha foi o homem que fez o preenchimento. O que ele falou em extensão foi sobre as rebeliões escravas contra a crueldade da perseguição e a ferramenta de auto-defesa empregada pelos escravos, criada pelos negros.
Agora que o Brasil está dando essa olhada relutante, ele está aprendendo sobre a capoeira, e estremecendo com o que aprendeu. Descrições apropriadamente feitas pelo velho homem atestam sobre os braços e pernas se movendo rapidamente, batalhando contra a investida de senhores de escravos impiedosos, lutando contra a grande organização da opressão apenas para serem esmagados em derrota sangrenta. A capoeira teve seus resultados mais aterrorizantes nos levantes escravos contra os saqueadores da dignidade human, os donos de terra que estiveram em operação desde a colonização do Brasil pelos portugueses. Com cada supressão vieram mais e mais restrições, até que em fim, cansados e espancados, os africanos insurgentes, os escravos, foram derrotados. Como a população branca escreveu os livros de história, eles apagaram as marcas negras da capoeira, fingindo que elas nunca existiram. Pastinha permaneceu vivo e trouxe a realidade do passado para o foco.
Mantida viva no segredo de almas endurecidas, a arte marcial continuou a ser ensinada e aprendida, e se movimentos eram exibidos, dizia-se que eram uma inocente dança nativa. Esse foi o modo da capoeira sobreviver à tortura do tempo.
Pastinha revelou como os aspectos culturais da arte pareceram desaparecer e como praticantes desesperados usaram a arte para quebrar os estatutos que foram colocados em seus caminhos. Que eles usaram a capoeira para a destruição e o dano, sem rima ou razão, é também parte da história desfigurada. Sem a cultura e a herança, assim como é muito ensinado no mundo das artes marciais, nada sobra a não ser a destruição e a demolição. De novo e de novo, negros insurgentes foram mortos em confrontos sangrentos. A herança da capoeira pareceu desaparecer para sempre.
Hoje, aos 81 anos de idade e cego, sem posses exceto pela renda que lhe foi assegurada por discípulos devotados da arte, Pastinha é cuidado por alunos que o olham com o mesmo respeito e dedicação que praticantes do karate e judo japoneses olham seus senseis. Ele vive em Salvador, Brasil, e ainda pratica a arte marcial, apesar de que os anos e o despeito cobraram taxas na sua destreza.
Mas assim como Pastinha revelou o passado, um instrutor de 68 anos conhecido apenas como "Mestre Bimba" está avançando para o futuro com sua instrução da arte marcial. Desde que ele começou a ensinar capoeira, muitos praticantes passaram por suas mãos e estão avançando a arte ainda mais.
Cinco anos atrás, um grupo liderado por Benjamin Muniz começou a fazer um estudo verdadeiro e esquemático do "kata" da capoeira, transferindo o que pastinha relatou em termos viáveis e ensináveis. Relutantemente, a nação começou a reconhecer a capoeira e aceitá-la pelo que era, apesar de acirradamente se negarem a reconhecê-la como esporte nacional - sabendo muito bem que a capoeira não é de maneira alguma um esporte. Hoje, ela foi "lavada" como uma dança cultural, nativa. Desta maneira, a capoeira é, para a hierarquia brasileira, "aceitável".
Prestígio internacional
Muniz e seu grupo, o Olodum, estão fazendo demonstrações onde quer que consigam encontrar audiência. Seus esforços em festivais folclóricos lhes conseguiram prestígio internacional, apesar da desajeitada ajuda dada pelos canais oficiais do país.
Em 1968, o Olodum representou o Brasil no 3o Festival Folclórico Latino Americano, realizado na Argentina, e levou o segundo lugar geral após ter vencido três medalhas de ouro e uma de prata. Este ano, eles ficaram em primeiro lugar no Festival Latino Americano realizado no Peru. Sua performance foi tão tocante, suportada por instrumentos musicais que são parte de sua aparência "lavada", que o ministério brasileiro está fazendo homenagem à arte com a inclusão de demonstrações de capoeira na sua agenda oficial de demonstrações.
Mas esta homenagem é ao desenvolvimento do negro nas artes marciais. Apesar de os estudantes de hoje serem membros de todas as raças, assim como acontece de muitos dos estudantes de artes marciais orientais serem brancos, os negros recebem a maior homenagem através de seu desenvolvimento da capoeira.
Nada faz o negro andar mais orgulhoso de si do que seu laço na cultura da arte marcial. Essa herança tornou-se arraigada no folclore da história das aretes marciais. E há uma pitada de oriental em sua constituição.
Quão estranho foi para essa herança surgir no Brasil e aparentemente terminar lá, porque os escravos foram negociados e espalhados por todo o mundo. Muito possivelmente, se tivesse havido instrutores da arte marcial nos Estados Unidos, a capoeira poderia ter mudado a face da história na América do Norte.
Quão estranho foi para essa herança surgir no Brasil e aparentemente terminar lá, porque os escravos foram negociados e espalhados por todo o mundo. Muito possivelmente, se tivesse havido instrutores da arte marcial nos Estados Unidos, a capoeira poderia ter mudado a face da história na América do Norte.
Esse não é um tratado de direitos civis; é um testemunho de uma arte marcial legítima e austera, que se identifica com todas as tradições de outras formas de arte marcial. Assim como os senhores feudais japoeneses oprimiram a população de Okinawa, fazendo com que estes buscassem maneiras efetivas de auto-defesa, assim é com a capoeira, desenvolvida a partir do africano escravo que foi treinado para lutar contra elementos em sua terra natal, mas que voltou o uso do seu treinamento para lutar contra os atormentadores da dignidade humana no Brasil.
Representantes do Brasil, aqueles que desejam olhar com prazer a história de sua nação, gostariam que as demonstrações de dança continuassem a ser tratadas como dança. De fato, a capoeira, por seus aspectos potencialmente perigosos, precisa ser praticada como uma dança, um kata, mas não pode haver um kumite. Os praticantes conhecem a regra e são forçados a aceitá-la, mas eles acreditam sinceramente que a arte poderia ser um esporte dinâmico se as rédeas do governo míope fossem removidas.
Sabidamente, há muitos praticantes da arte que estão trabalhando sem chutes ou socos. Isso tem resultado em alguns efeitos danosos, e mesmo eles reconhecem que o poder da arte precisa ser moldado de alguma maneira em um esporte do qual a nação possa ter orgulho. Assim como Gichin Funakoshi moldou o karate e Jigoro Kano moldou o judo, os líderes da capoeira, talvez Mestre Bimba, estão buscando por uma combinação de esporte e arte.
A ênfase da capoeira é na força muscular, flexibilidade das articulações e movimentos rápidos. Todos esses são calculados para subjugar, e subjugar rapidamente, qualquer ameaça, qualquer batalha.
Movimentos corporais rápidos
A capoeira usa muitos movimentos corporais rápidos, como a maioria das artes marciais. Mas ela põe mais ênfase no poder das pernas, armamento pesado quando usado por lutadores treinados. Um capoeirista pode enfrentar um oponente face a face, mas em uma fração de segundo ele pode descer ao nível do solo, disparando um pé fortemente em uma área de ataque vital. Tem sido dito que o lutador de capoeira, treinado para colocar poder de ataque em seus pés, pode efetivamente destruir um homem com um chute mortalmente bem posicionado.
Que isso aguça o interesse daqueles que a veem, tem sido bastante bem-documentado. Em Los Angeles para comparecer a um festival folclórico, os membros do Olodum foram cercados por estudantes, pedindo para demonstrarem em escolas e universidades locais. Em cada demonstração, havia mais interesse em trazer a arte marcial para os Estados Unidos. Muitas das pessoas fazendo os pedidos eram, para a surpresa de ninguém, da comunidade negra.
Que isso aguça o interesse daqueles que a veem, tem sido bastante bem-documentado. Em Los Angeles para comparecer a um festival folclórico, os membros do Olodum foram cercados por estudantes, pedindo para demonstrarem em escolas e universidades locais. Em cada demonstração, havia mais interesse em trazer a arte marcial para os Estados Unidos. Muitas das pessoas fazendo os pedidos eram, para a surpresa de ninguém, da comunidade negra.
Em São Paulo, Brasil, Waldemar dos Santos é o homem responsável por tornar a capoeira popular. Sua é uma missão que já viu a face da determinação turvada pelas barreiras à sua perseverança.
Dos Santos, um homem baixo e forte com mãos e testa marcados por cicatrizes, aprendeu sua capoeira nas ruas. Mas ele é o mais proeminente professor nesta cidade onde os estudos de judo e karate atingiram um novo pico de interesse e prática. Aos 37, o homem está determinado a ver a capoeira se tornar ainda mais importante que essas outras artes marciais. "Essa é brasileira", ele diz com certeza. "Esta arte de combate está no sangue".
Tão eminente é Dos Santos sobre a capoeira e seus laços nacionalistas, que mais de 100 estudantes aprendem sob sua tutela. Ele aprendeu a arte marcial nas clareiras de terra batida, que vieram a se toranr "academias" para a capoeira do Rio de Janeiro, Brasil - mas agora que retornou a São Paulo, o jovem está determinado a tornar a capoeira "oficial".
Ele também, sofreu a opressão das autoridades, tendo nomeado seu "curso" um movimento folclórico brasileiro. Seus estudantes praticam no que era o salão de uma casa, suas paredes agora sujas com palmas e pés sujos. Após seis meses de movimentos de "dança", que na realidade são o "kata", Dos Santos instrui seus alunos na fase violenta da arte. "Eu admito", diz ele, não muito orgulhos da afirmação, "que a capoeira brasileira é um dos estilos formalizados mais sujos que eu conheço".
Quão "suja" a capoeira tem sido, ou se tornou ? Os livros de história não são claros sobre esse ponto, também. Há muitas lendas cercando a arte marcial e explicando como ela foi usada por marinheiros brasileiros que a aprenderam e "adaptaram" dos escravos. De acordo com algumas fontes que relutantemente admitem isso, os marinheiros usavam a capoeira para matar, afixando facas e navalhas a seus pés e mãos antes de entrar numa luta. Dos Santos dá de ombros ao falar sobre essa faceta. Talvez assim tenha sido como a arte tenha sido feita "bastarda" pelos marinheiros brasileiros, me ele tem confiança nas mãos e pés vazios para ultrapassar esse vício.
Quão "suja" a capoeira tem sido, ou se tornou ? Os livros de história não são claros sobre esse ponto, também. Há muitas lendas cercando a arte marcial e explicando como ela foi usada por marinheiros brasileiros que a aprenderam e "adaptaram" dos escravos. De acordo com algumas fontes que relutantemente admitem isso, os marinheiros usavam a capoeira para matar, afixando facas e navalhas a seus pés e mãos antes de entrar numa luta. Dos Santos dá de ombros ao falar sobre essa faceta. Talvez assim tenha sido como a arte tenha sido feita "bastarda" pelos marinheiros brasileiros, me ele tem confiança nas mãos e pés vazios para ultrapassar esse vício.
Registros policiais recentes
Registros policiais recentes no Rio mostram o que acontece quando a capoeira sai de controle. A polícia militar tentou prender um capoeirista bêbado apelidado Mestre Satã. Satã encarou um pelotão de 24 policiais e os combateu ao empate. Sete policiais foram hospitalizados, dois com braços quebrados e dois com fígados rompidos. Quando Satã ainda estava de pé, desafiante, após uma bateria de 24 cassetetes, a polícia teve que decidir por atirar nele ou deixá-lo desacordado. Decidiram pela última opção.
"Os pés são as armas mais mortais de um homem", diz Paulo Romero, um praticante de capoeira do Rio. "A cabeça é a parte mais fraca. A capoeira visa trazer a arma mais forte contra o ponto de fraqueza".
Mestre Bimba definiu o esporte-arte moderno e traçou 72 movimentos distintos que tem nomes vivazes, similares aos dados no tai chi chuan, tais como "tesoura do papai", "bananeira" e "rabo-de-arraia".
"Antes da Segunda Guerra Mundial", Mestre Bimba diz, "a capoeira era ilegal".
A polícia era chamada onde quer que houvesse a prática. Agora, finalmente, ela está sendo apreciada pela beleza física que realmente é. Velocidade, agilidade e multiplicação da força são a chave.
A polícia era chamada onde quer que houvesse a prática. Agora, finalmente, ela está sendo apreciada pela beleza física que realmente é. Velocidade, agilidade e multiplicação da força são a chave.
Mestre Bimba sabe que essa definição está em conflito com a visão dos capoeiristas sobre a arte. "Capoeira é tão graciosa quanto um balé, mas foi criada para matar", ele admite. "Em uma luta de rua no velho Brasil colonial, capoeira era uma luta até o fim. Uma faca, uma navalha, uma garrafa quebrada, faziam um capoeira valer 20 homens".
Pastinha, entretanto, foge do desprezo contra a arte. Historicamente, ela pertence ao Brasil e deveria ser reconhecida, em sua opinião. "Como brasileiro", ele diz, "eu estou orgulhoso desse país amistoso. O capoeira encontrando seu adversário tem a possibilidade por meio da leveza e da rapidez da arte, de desarmar qualquer oponente, ou tomando sua arma ou vencendo-o ao atirar o adversário armado no chão".
Pastinha ainda é a autoridade primária na arte, e ele tem cuidado de desenvolvê-la até um ponto de respeitabilidade. Mestre Bimba é o mais reconhecido praticante e professor no Brasil, e seus estudadnete são tão entusiastas das técnicas, quanto são estudantes de qualquer lugar. Há alguns infelizes por ela estar presa ao aspecto de demonstração, por mais chamativo que ele seja com seu acompanhamento musical e roupas coloridas, geralmente calças listradas que dão uma aparência berrante e carnavalesca que a maioria. Ao menos a arte está sendo nutrida e algum dia talvez, se ela continuar a viver e ganhar em popularidade, a capoeira pode tornar-se uma arte marcial completa e uma paixão nacional.
Nesse momento, uma universidade a aceita como parte de seu currículo, dentro de seu programa folclórico. Movê-la para a educação física pode ser uma realização delicada, mas enquanto esse dia não chega, os seguidores da arte vão continuar a demonstrá-la, permitindo às pessoas se esquecerem que ela é realmente um exemplo do poder negro.
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segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Muitas águas de beber
Dê uma reparada nesse vídeo:
Não consigo entender qual é o rationale, qual o motivo real de se acreditar que a capoeira tenha origem em UMA luta, vinda de UM povo. Ela não é uma criatura de carne e osso, que tenha um pai e uma mãe. A capoeira nasceu de um caldeirão de culturas - esmagadoramente, culturas negras, e minoritariamente, culturas brancas e indígenas - mas não acredito que seja possível apontar A ORIGEM VERDADEIRA.
Grandes imagens, grande áudio! Mas o vídeo em si já começa com uma bela pisada no tomate, na minha opinião: a de que a capoeira foi criada pelos índios no Brasil.
Não há dúvida alguma, para mim, das raízes africanas da capoeira - mas o assunto "origem da capoeira", como um todo, já me cansou um bocadinho (no meu caso, já estou há 10-15 anos na mesma tecla :-)...
Não consigo entender qual é o rationale, qual o motivo real de se acreditar que a capoeira tenha origem em UMA luta, vinda de UM povo. Ela não é uma criatura de carne e osso, que tenha um pai e uma mãe. A capoeira nasceu de um caldeirão de culturas - esmagadoramente, culturas negras, e minoritariamente, culturas brancas e indígenas - mas não acredito que seja possível apontar A ORIGEM VERDADEIRA.
A capoeira não é um construto pronto, mesmo em dias atuais... Ela está em construção constante. O ritual não é igual ao que era 50, 100, 150 anos atrás - e engana-se quem achar que era. O modo de pensar não era igual, o modo de se movimentar não era igual. E perceba que eu mencionei um período de tempo "curto"... Imagine-se então o que eram algumas das lutas que originaram a capoeira, em tempos pré-escravidão - 500, 1000, 1500 anos atrás.
Pensando num argumento mínimo: pela quantidade de etnias negras trazidas e misturadas à força aqui no Brasil, seria humanamente impossível manter qualquer tradição imutável. Toda tradição oral é viva, e muda quando mudam os que a mantém viva. Não há tradição oral estática - todas refletem sinais de seus tempos.
O seu mestre não faz tudo igual ao que o mestre dele fazia, é fisicamente impossível. A termodinâmica garante que a transmissão de energia entre dois pontos sempre acarreta perda: a energia elétrica, ao ir para a lâmpada, não gera apenas luz - também gera calor. A sua energia, ao pedalar uma bicicleta, não gera apenas o movimento - também aquece as correntes, faz barulho, range. Não existem sistemas de energia "fechados", que uma vez abastecidos, nunca mais precisem de combustível.
É claro que trazer conceitos físicos para dentro do campo da mente humana é sempre perigoso, mas me arrisco a defender a posição nesse caso. Nenhum ser humano é uma ilha, todos estamos expostos a opiniões diariamente, e algumas dessas opiniões mudam a nossa cabeça. Não é que fulano despreza o que o mestre dele ensinou: ele é uma pessoa com gostos e direitos, e no gosto e direito dele, vai ajeitar um pouquinho aquilo que aprendeu - para que goste ainda mais.
Por esse motivo é que os uniformes mudam de uma geração para outra; as baterias mudam de formato; os grupos ficam mais ou menos agressivos; as letras se alteram; os golpes mudam de nome; alguns golpes deixam de ser praticados (Você sabe o que é um bochecho ? E um baú ? E uma pantana ? E se sabe, tem certeza que faz igualzinho ao que se fazia em 1920 ?).
Entendo que a beleza da capoeira está justamente nessa falta de definições - é diferente de artes marciais orientais cuja forma e filosofia estão descritas em pergaminhos com centenas ou milhares de anos de idade. A capoeira é mais nebulosa, mais difusa, dá mais lugar ao praticante pensar e definir ele mesmo a arte. Temos sim luminares, capoeiristas cujo pensamento e ações formaram e formam gerações - Pastinha, Noronha, Cobrinha Verde, Waldemar, Bimba, Canjiquinha, e tantos outros. Mas no meu modo de ver, eles não deixaram regras rígidas: cada um deixou o "seu jeito certo", e se em algum momento discriminou o jeito do outro, não deveria ser julgado por isso - cada um era produto de seu tempo, e suas palavras faziam sentido naquele contexto.
Nós que chegamos agora, os mais novos, temos o privilégio de poder beber a água de muitas fontes, e desenhar nosso caminho baseando-nos naquilo que nos agradar, do que cada um dos "monstros" deixou.
Embora não esteja ligada diretamente à capoeira, eu gosto muito de uma frase de Lee Jun Fan, também conhecido como Bruce Lee. Tendo fundado um estilo, o jeet kune do, Bruce Lee parece paradoxal ao afirmar que sua arte não tem forma. O jeet kune do, por definição, não tem um jeito certo de se fazer.
"Se as pessoas disserem que o jeet kune do é diferente disso ou daquilo, então deixe o nome jeet kune do ser apagado, pois é isso que ele é, apenas um nome. Não se preocupe com ele."
Pode soar zen demais, mas é algo que eu percebo, mesmo implicitamente, na capoeira. A expressão física da capoeira importa muito menos, para mim, do que o estado mental. O desejo do capoeirista, ao jogar, me encanta mais que o jogo em si... Perceba que não quero dizer que cabe tudo ou que vale tudo na capoeira, e sim que cabe tudo e vale tudo o que for feito com respeito ao próximo, à sua integridade física e moral.
A capoeira com amor, faz amigos. A capoeira, sem amor, nem capoeira é...
Pensando num argumento mínimo: pela quantidade de etnias negras trazidas e misturadas à força aqui no Brasil, seria humanamente impossível manter qualquer tradição imutável. Toda tradição oral é viva, e muda quando mudam os que a mantém viva. Não há tradição oral estática - todas refletem sinais de seus tempos.
O seu mestre não faz tudo igual ao que o mestre dele fazia, é fisicamente impossível. A termodinâmica garante que a transmissão de energia entre dois pontos sempre acarreta perda: a energia elétrica, ao ir para a lâmpada, não gera apenas luz - também gera calor. A sua energia, ao pedalar uma bicicleta, não gera apenas o movimento - também aquece as correntes, faz barulho, range. Não existem sistemas de energia "fechados", que uma vez abastecidos, nunca mais precisem de combustível.
É claro que trazer conceitos físicos para dentro do campo da mente humana é sempre perigoso, mas me arrisco a defender a posição nesse caso. Nenhum ser humano é uma ilha, todos estamos expostos a opiniões diariamente, e algumas dessas opiniões mudam a nossa cabeça. Não é que fulano despreza o que o mestre dele ensinou: ele é uma pessoa com gostos e direitos, e no gosto e direito dele, vai ajeitar um pouquinho aquilo que aprendeu - para que goste ainda mais.
Por esse motivo é que os uniformes mudam de uma geração para outra; as baterias mudam de formato; os grupos ficam mais ou menos agressivos; as letras se alteram; os golpes mudam de nome; alguns golpes deixam de ser praticados (Você sabe o que é um bochecho ? E um baú ? E uma pantana ? E se sabe, tem certeza que faz igualzinho ao que se fazia em 1920 ?).
Entendo que a beleza da capoeira está justamente nessa falta de definições - é diferente de artes marciais orientais cuja forma e filosofia estão descritas em pergaminhos com centenas ou milhares de anos de idade. A capoeira é mais nebulosa, mais difusa, dá mais lugar ao praticante pensar e definir ele mesmo a arte. Temos sim luminares, capoeiristas cujo pensamento e ações formaram e formam gerações - Pastinha, Noronha, Cobrinha Verde, Waldemar, Bimba, Canjiquinha, e tantos outros. Mas no meu modo de ver, eles não deixaram regras rígidas: cada um deixou o "seu jeito certo", e se em algum momento discriminou o jeito do outro, não deveria ser julgado por isso - cada um era produto de seu tempo, e suas palavras faziam sentido naquele contexto.
Nós que chegamos agora, os mais novos, temos o privilégio de poder beber a água de muitas fontes, e desenhar nosso caminho baseando-nos naquilo que nos agradar, do que cada um dos "monstros" deixou.
Embora não esteja ligada diretamente à capoeira, eu gosto muito de uma frase de Lee Jun Fan, também conhecido como Bruce Lee. Tendo fundado um estilo, o jeet kune do, Bruce Lee parece paradoxal ao afirmar que sua arte não tem forma. O jeet kune do, por definição, não tem um jeito certo de se fazer.
"Se as pessoas disserem que o jeet kune do é diferente disso ou daquilo, então deixe o nome jeet kune do ser apagado, pois é isso que ele é, apenas um nome. Não se preocupe com ele."
Pode soar zen demais, mas é algo que eu percebo, mesmo implicitamente, na capoeira. A expressão física da capoeira importa muito menos, para mim, do que o estado mental. O desejo do capoeirista, ao jogar, me encanta mais que o jogo em si... Perceba que não quero dizer que cabe tudo ou que vale tudo na capoeira, e sim que cabe tudo e vale tudo o que for feito com respeito ao próximo, à sua integridade física e moral.
A capoeira com amor, faz amigos. A capoeira, sem amor, nem capoeira é...
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domingo, 2 de setembro de 2012
Ainda a capoeira olímpica
Algum tempo atrás, escrevi um pouco sobre o que eu achava da capoeira olímpica. Ontem à noite, chegou até mim, pelo Facebook, o texto abaixo (escrito pelo Mestre Cobra Mansa):
ENCERRAMENTO DAS OLIMPÍADAS: QUE CAPOEIRA É ESSA?
Assisti ao final das Olimpíadas em Londres. O Brasil, como sempre, apesar de não ter conquistado grandes medalhas, fez bonito. O encerramento em Londres, como de costume, foi cheio de pompas e fogos de artifício. O Brasil, país que vai sediar as próximas Olimpíadas em 2016, fez sua apresentação cultural. O samba foi destaque, com o gari Sorriso apresentando o Brasil de uma forma simples e bonita. Mas fiquei chocado quando, logo no início, depois da batucada, vi uma apresentação das mulatas brasileiras, com perucas e máscaras negras. Uma caricatura grotesca dos anos anos 50 em que era comum brancos com o rosto pintado de negro (os black faces) e até mesmo negros representarem um papel estereotipado, em que pulavam e imitavam macacos e animais para uma plateia branca, que esperava deles exatamente esse tipo de comportamento e estereótipo. Naquela época, em que o negro precisava de um espaço na TV e no teatro, era comum esse tipo de comportamento e até compreensível. Agora que estamos em 2012, depois de tantas lutas do movimento negro no Brasil e no mundo em prol de uma melhor imagem de nós negros, fiquei pasmado em ter que assistir tudo isso de novo!
Apesar do desconforto, continuei assistindo o encerramento quando tive uma decepção ainda maior: a apresentação da capoeira para o mundo! Começou com um grupo de acrobatas mal treinados, com o corpo todo cheio de óleo e um abadá branco, fazendo piruetas. Sem berimbau, sem canto, sem ginga, sem nada! Fiquei refletindo: que capoeira é essa que estamos apresentando para o mundo?! Aquilo mais parecia um circo com acrobacia para envergonhar qualquer atleta de ginástica olímpica. Acredito que os mesmos deveriam estar rindo ou chorando de vergonha. O que vimos foi um grupo de acrobatas mal treinados. Senti falta do nosso berimbau, o grande símbolo da capoeira. Na verdade, senti falta da capoeira! Não tiveram jogos de capoeira, somente acrobacias individuais. Será que a capoeira se tornou isso, uma apresentação acrobática sem ginga e sem berimbau? Foi triste, diante do preço tão alto que pagamos para conseguir chegar até lá. Valeu a pena ou aquilo foi só uma coisa “para inglês ver”? Acredito que para algumas pessoas talvez tenha sido a realização de um sonho se apresentar em uma final de Olimpíadas. Mas aonde está a nossa capoeira, essência, existência e alma? Como seria a capoeira nas Olimpíadas no Brasil? Estamos perdendo a nossa identidade, nossas raízes, tratando a capoeira como um produto rotulado, embalado e coreografado, “para inglês ver”. Nesse caminho, não importa mais sua historia ou trajetória, a capoeira está perdendo a sua alma dentro da trajetória esportiva. Fico apreensivo pelo futuro da capoeira nas Olimpíadas de 2016!
Belas palavras, e também muito propositadas. Mas sinceramente, não vejo o porquê da surpresa... Algum capoeirista ainda tem dúvida sobre qual é a imagem do negro, do Brasil e da capoeira, que a nossa elite tem (e quer vender) ?
Nada contra quem gosta da capoeira acrobática, mas os que estão por cima (e por conseguinte, a mídia brasileira; e por conseguinte, a maioria da população) simplesmente ignora que a capoeira vá além de saltos. Qual capoeirista nunca foi perguntado "se sabia dar mortal", ao dizer que joga capoeira ? Isso, amigos, é apenas mais um sinal dos tempos. O que vende mais, aparece mais... Angoleiros, regionais e contemporâneos, rituais e ritmos, tudo vai para a mesma panela do esquecimento: a capoeira que se quer mostrar é a do "fortinho que sabe saltar".
Que venham as olimpíadas de 2016. Elas virão, e irão, e alguns vão ganhar seu dinheirinho; outros vão continuar no "gueto", escondidos, subversivos como a capoeira sempre foi.
Resistência é para quem é de resistência!
Para fechar, um trechinho de "Andrea Doria", do Renato Russo.
Às vezes parecia que era só improvisar
E o mundo então seria um livro aberto,
Até chegar o dia em que tentamos ter demais,
Vendendo fácil o que não tinha preço.
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