segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Sobre a capoeira olímpica


Acho que a maior dificuldade de se implantar uma "capoeira olímpica" está na determinação de um vencedor - algo que todo esporte preconiza: um jogo tem que ter um ganhador e um perdedor, e uma maneira objetiva de contar pontos para decidir quem é quem. 

Entre os esportes reconhecidos pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) estão várias lutas: judô, taekwondo e greco-romana (já são olímpicas), karate, sumô e wushu (são reconhecidas, mas ainda não são olímpicas).

Eu me pergunto o que os mestres do taekwondo se perguntaram quando viram sua arte passar a "contar pontos". Mas por outro lado, o taekwondo é uma arte de combate explícito - até onde eu sei, não existe um "jogo" de taekwondo. Então o pulo de luta para esporte fica "fácil".

Particularmente, eu acho que a capoeira não tem nada a ganhar sendo olímpica. "Reconhecimento", o judô e o karate já tinham, muito antes de serem "olimpizados". A capoeira tem que ser reconhecida pelo que ela é: expressão cultural de um povo (o brasileiro), de raiz negra, capaz de criar cidadania e auto-respeito em qualquer outro lugar do mundo em que seja bem ensinada.

Por outro lado, acho que a capoeira tem a perder sendo olímpica: na metodização do ensino, que pode até acelerar o aprendizado, mas que tolhe a espontaneidade; na introdução de regras explícitas do que pode e do que não pode; na figura dos mestres velhos que certamente serão postos para escanteio com mais uma vitória da educação física acadêmica sobre a cultura popular. 

Acho que o capoeirista olímpico tem a perder, pessoalmente. A mandinga não se formata, não se regra, não se mede com nenhuma régua ou balança. O jogo de capoeira não tem sempre um vencedor - às vezes tem dois, às vezes não tem nenhum. E todo mundo que está em volta sabe quem é quem, mesmo sem ter juiz para contar pontos...

No final das contas, acho que é cada macaco no seu galho: acredito até que a capoeira olímpica possa existir, mas perderá sua raiz, deixará de ser a capoeira que admiro. Ela que fique lá no seu tatame, tablado, ringue, arena, octágono, sei lá como vai se chamar. Eu prefiro ficar nas ruas, praças e terreiros, esquentando o chão batido, o cimento ou o asfalto.

2 comentários:

  1. Grande Teimosia. Ótimo texto, deu gosto de ler. Grande abraço!

    ResponderExcluir
  2. João Horácio BorgesJan 11, 2012 04:07 AM

    Grande Teimosia!!

    Concordo em genero numero e grau com suas colocações. Se não há o que ganhar com isso para que se submeter e correr o risco de perda de suas caracteristicas originais. Não a Capoeira Olimpica ou qualquer outra forma de estilização da Capoeira.

    ResponderExcluir